domingo, 20 de setembro de 2009

CHAPÉU SEM CABEÇA

Chapéu
de um homem
que o abandonou
na rua.

Chapéu
sem cabeça.

Chapéu
com história
mas sem cabeça.

Aguarda
que alguém o pegue
e ponha-o na cabeça
nem que seja
por um instante
para escapar
da chuva
ou do sol
que em determinadas horas do dia
torra os miolos.

NAUFRÁGIO

Naufrago
e volto à tona
da palavra
com mais vozes
encontradas
no fundo da água oceano
dentro de mim.

ESCREVA UM POEMA AGORA

Escreva um poema agora.
Você não é poeta?
Não tem problema.
Escreva uma poema agora.
Já escreveu?
Ainda não?
O poema não pode esperar.
Pode ser de um verso, dois,
dez.
Escreva uma poema agora.
E depois leia em voz alta
para perceber
como ficou o poema
que você acabou de escrever
agora.

O TANGO

Isabela dança
um tango
sozinha na sala.

Isabela dança
a sua solidão
em ritmo
de tango.

Isabela dança
a sua memória
em forma de tango.

Isabela fica horas
na sala
dançando tango.

Isabela nem ouve
o telefone tocar
porque só ouve o tango.

ESCREVO

Escrevo
para salvar a palavra do esquecimento.

Escrevo
para me salvar do esquecimento
da não-memória
da amnésia
que condena
crianças, adolescentes e adultos
a um convívio raso
com o presente
sem um ontem
que lhes aqueça
a mente e a alma.

AS ÁRVORES SE DIVERTEM

As árvores
no parque
observam
as pessoas correndo
suando
com a língua para fora
quase morrendo.

As árvores
riem.
As árvores
se divertem
tanto
com esses seres tão agitados
que correm
correm
correm
e nem olham
para elas
e para as nuvens
no céu
distantes.

As árvores
gostariam de poder dizer
para eles:
-Calma!
Mas como são árvores
contentam-se
em observá-los
tensos
concentrados
sem um sorriso na face.

sábado, 19 de setembro de 2009

UM PONTO

Um ponto ou vários.

Um ponto ou milhões de pontos no espaço.

Um ponto
e o infinito
dentro dele
nascendo multiplicado.